Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
e um dia me acabarei.
Cecília Meireles
sábado, dezembro 08, 2012
sexta-feira, dezembro 07, 2012
Eu mesma viro os olhinhos
Solzinho baixo esquentando a tarde. Brisa leve no rosto. Pés no chão, literalmente. Olhar sem ver. Ouvir sem escutar. Fantasias. Devaneios. Lembranças. Suspiros. Satisfação. Nenhum arrependimento...
Hora de partir/Carta aberta
Como é difícil! Já estive no lugar de quem fica, hoje sou aquela que vai. E como é doloroso reconhecer o que se sente, lutar contra a culpa e a sensação de fracasso, ser cobrada por uma sociedade que compreende a felicidade feminina como dependente de um homem. Infinitamente mais difícil do que eu imaginava.
"Mas vocês combinavam tanto", "puxa, ele é um cara tão legal". Sim, sim. Eu sei de tudo isso. Realmente combinávamos muito e você é um cara maravilhoso. Mas a vida anda, as coisas se transformam. Eu mudei.
Seria mais cômodo manter, tentar de novo, me esforçar... Mas não! Não seria justo com nós. Essa ideia de "salvar um relacionamento" não faz sentido algum. O que é possível salvar são as lembranças, mas o relacionamento em si, se não está bom para os dois agora, não há porque se apegar ao passado. Foi ótimo, sim, não me arrependo de nada. Acredite em mim: foi muito difícil admitir que algo tão bom não me faz mais feliz. Foram longos momentos de angústia até, finalmente, perder o meu medo da chuva e parar de trair a mim mesma.
Você me pergunta onde erramos. Não houve erros, só mudanças. Não tem certo e errado em nossa relação, apenas encontros e desencontros. Um dia nos encontramos, fizemos planos, fomos felizes. Agora você deseja uma companheira, eu a liberdade. Você vê em mim um sentido pra vida e eu vejo isso como um fardo que não consigo carregar. É demais, é pesado...
Cada livro tirado da estante, cada roupa guardada na mala, cada lágrima escorrendo no seu rosto... Doía mais do que uma facada. Nenhum pedido de desculpas aliviaria o que sentimos. Eu pedi porque realmente me senti culpada. Como podia fazer aquilo com alguém que me amava tanto? Seria eu tão fria e racional assim? Não! Eu sofri. Muito mais do que você conseguiu ver.
Hoje isso também se transformou. Não sinto mais a culpa. São coisas da vida, é impossível não sofrer. Fui eu, mas poderia ter sido você, extrapola qualquer controle. E se hoje há saudade é porque antes foi bom. Agora me sinto mais viva do que nunca, com boas lembranças no coração e muito aprendizado na bagagem. E tenho certeza que você também tem aprendido muito.
Sinto-me orgulhosa de que faça parte da minha história e acho plenamente possível continuar te amando. Aquele amor que lhe falei, sem projeções, sem posse. Aquele lá que costumamos chamar de amizade. Sim, meu amigo, só desejo coisas boas pra você. Estarei na torcida com faixas e pompom por sua felicidade. Se é preciso paz para sorrir, aguardo ansiosamente seu sorriso.
"Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz"
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz"
Ah, esses seus olhos!
Olhos que procuram pela noite, no
metrô, nas ruas, nas janelas dos apartamentos acesos. Que observam cochichos, tecidos
de roupas, cores de esmalte, pichações nos muros, doces na vitrine, reflexos
nos vidros dos carros. E quando se deparam finalmente com outro olhar, até pensam
em fugir, mas fixam-se por longos e intermináveis segundos.
Olhos incapazes de segurar as
lágrimas frente a uma obra de arte, à saudade, à decepção, ao sofrimento de um
amigo, às lembranças da infância, um momento de felicidade. Parecem até uma
cachoeira. Por eles escorrem a tristeza, a angústia, a raiva, a força, a
maquiagem e continuam mais lindos do que nunca.
Olhos atentos, que não se fecham
ao que é feio, torto, miserável, injusto, àquilo que ninguém quer ver. E ainda
chama a atenção de outros olhares. “Olhem! Isso não está certo!”
Olhos que não escondem, “janelas
da alma” como dizem por aí. E se tentam esconder... Ah, quanto mistério! Não
são tão bem sucedidos como você imagina, mas é impossível parar de encará-los.
É um mergulho, é intimo, mesmo desconhecido.
Olhos sedutores, que provocam,
atraem, devoram. Querem observar e fotografar cada detalhe. “Não, não apague a
luz. Quero ver absolutamente tudo”.
A menina dança
Quando eu cheguei tudo, tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma viro os olhinhos
Só entro no jogo porque
Estou mesmo depois
Depois de esgotar
O tempo regulamentar
De um lado o olho desaforo
Que diz meu nariz arrebitado
E não levo para casa, mas se você vem perto eu vou lá
Eu vou lá!
No canto do cisco
No canto do olho
A menina dança
E dentro da menina
A menina dança
E se você fecha o olho
A menina ainda dança
Dentro da menina
Ainda dança
Até o sol raiar
Até o sol raiar
Até dentro de você nascer
Nascer o que há!
Quando eu cheguei tudo, tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma viro os olhinhos
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma viro os olhinhos
Só entro no jogo porque
Estou mesmo depois
Depois de esgotar
O tempo regulamentar
De um lado o olho desaforo
Que diz meu nariz arrebitado
E não levo para casa, mas se você vem perto eu vou lá
Eu vou lá!
No canto do cisco
No canto do olho
A menina dança
E dentro da menina
A menina dança
E se você fecha o olho
A menina ainda dança
Dentro da menina
Ainda dança
Até o sol raiar
Até o sol raiar
Até dentro de você nascer
Nascer o que há!
Quando eu cheguei tudo, tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma viro os olhinhos
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